Segundo o conceito habitual utilizado pelo mercado financeiro a liquidez se resume na capacidade de qualquer ativo de se converter em meio e unidade monetária vigente. Neste sentido, a capacidade imediata de conversão do referido ativo pela moeda de troca corrente revela o seu grau de liquidez, quanto mais imediata, mais líquido tende a ser o ativo em questão. Por outro lado, e agora em termos econômicos, liquidez também se refere ao volume de papel moeda em poder do público na economia (PMPP)¹.
Entretanto, cabe aqui conceituar que o meio de pagamento (PMPP) são os ativos com a máxima liquidez, ou seja, desempenham intrinsecamente a função de reserva de valor ao longo do tempo e são capazes de liquidar obrigações advindas de transações realizadas em mercados à vista².
Sugerindo uma premissa mais detalhada o economista inglês John R. Hicks classificou os ativos da economia em três categorias (i) ativos plenamente líquidos, (ii) ativos líquidos e (iii) ativos ilíquidos. Na primeira classe estão os ativos de moedas, na segunda estão os ativos como ouro, títulos públicos e privados etc. e na terceira classe estão às máquinas e bens duráveis demandados por consumidores, sendo que todas as classes fazem parte de um mercado organizado para sua conversão³.
As classes de ativos foram delimitadas por Hicks para determinar as fronteiras existentes entre os mercados (bursátil, moedas, bens de capital, imóveis etc.). Diga-se de passagem, que o mercado financeiro é o mais líquido, no qual consegue quase que instantaneamente incorporar nos teus ativos todas as informações internas e externas ao seu ambiente de atuação.
Vale ressaltar, e segue como a análise principal, que para a economia a liquidez possui um caráter ambíguo conforme abordado por Keynes4: "muitas vezes facilita, embora algumas vezes entrave, o curso do capital", promovendo, em situações específicas "a instabilidade do sistema".
Atualmente temos nas principais economias uma enorme liquidez promovida à base de recursos públicos para conter a escassez dos ativos plenamente líquidos (moeda) pela crise internacional. No primeiro momento, o aumento do fluxo monetário serviu para estabilizar os mercados e equilibrar a oferta do crédito, fundamental para a atividade econômica.
Porém, a maior parcela do fluxo de liquidez não se direcionou para a atividade real da economia. Em sua maior parte foram alocadas para os mercados financeiros (ativos líquidos conforme a classificação de Hicks), aqui representados pelo mercado de ações e futuros. Se não bastasse a alocação para estes mercados, a direção deste capital seguiu para o mercado externo, principalmente para economias como a China, Brasil e Índia (forte lastro da economia em commodities).
Tomando como fundamento que estas economias estão num processo mais avançado da recuperação econômica em relação às desenvolvidas, existe uma macro-relação irracional deste fluxo de liquidez para estas economias. Irracional no sentido de que estes mercados não são suficientes para promover tão somente o fim da recessão mundial. Além disso, como explicitado por Keynes, promoverá ao longo do tempo alguma instabilidade no sistema. A conjunção dos efeitos da recuperação econômica, do aumento da liquidez internacional, da redução das taxas de juros internacionais e da inflação dos preços dos ativos financeiros, principalmente, das economias emergentes são fontes de instabilidade e passivos para a formação de bolhas.
Apoiando-se nas palavras de Keynes, que nos "mercados financeiros" a liquidez, que se apresenta como solução, ou resposta racional, à incerteza, se traduz em instabilidade sistêmica, tornando irracionais as decisões. Do ponto de vista econômico, a necessidade de monitorar os reflexos da injeção de moeda nas economias é essencial para que não ocorra um novo ajuste na economia mundial.
A aceleração dos preços dos ativos dos emergentes são os primeiros sinais de uma busca de retorno de curto prazo pelos agentes das economias desenvolvidas. Seria injusto os emergentes pagarem o preço pela liquidez dos mercados financeiros centrais, pois estão sendo os principais atores da retomada da economia mundial.
¹PME-Cbc=PMC e PMC-Et=PMPP
²CARVALHO Fernando J. Cardim de et al. Economia Monetária e Financeira. Rio de Janeiro, Elsevier, 2007.
³Hicks, John R. Critical Essays in Monetary Theory. London, Oxford, 1967.
4KEYNES, J.M. A teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo, Abril Cultural, 1983.
Ricardo André Jacomassi é responsável por análises setoriais das commodities agrícolas na LAFIS Consultoria Econômica e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
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