quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O mercado e as expectativas racionais

Por: Ricardo André Jacomassi20/08/09 - 14h03InfoMoney

Existe uma premissa descrita nos manuais de finanças de que o mercado financeiro utiliza todas as informações existentes para determinar os preços dos ativos. Com as informações disponíveis, cuja regra é a não existência de assimetrias, os participantes do mercado conseguem parametrizar eficientemente os cenários de suas decisões.

Se o momento requer maior conservadorismo ou afrouxamento, o fundamento da tendência requer que as expectativas estejam alinhadas. Uma vez que a racionalidade esteja guiando as decisões da conjuntura, a confiança e a segurança favorece para uma sensação de baixa probabilidade da mudança dos rumos da calmaria do mercado.

A racionalidade do mercado pressupõe um ambiente de confiança, simetria de informações e expectativas se realizando em acordo com o esperado anteriormente. Caso um dos fatores venha a se deteriorar por algum evento aleatório, a possibilidade de desorganização nas estruturas dos mercados é eminente e as causas serão observadas principalmente através das distorções nos preços.

As distorções são observadas antecipadamente pelos principais players dos mercados, pois, sua participação possui uma amplitude maior do que dos demais agentes. Chamo esta dinâmica de gravitação financeira, na qual sua força está atrelada na capacidade dos demais agentes seguirem o movimento no instante T+1, ou seja, a capacidade de fazer uso do movimento de um grande player do mercado para racionalizar as suas decisões.

De acordo com a hipótese das expectativas racionais ¹ (Ye+1), os participantes do mercado necessitam saber qual o modelo (econômico no caso) está sendo usado e quais informações estão disponibilizadas. Almejando sempre o ponto ótimo, os participantes incorporam rapidamente as informações disponíveis na formação das expectativas para não cometerem e nem repetirem os erros, além disso, também buscam informações simétricas que podem auxiliar na prevenção de perdas futuras.

Desenvolvida inicialmente por John Muth (1961), e aperfeiçoada posteriormente por Robert Lucas (1979) e Thomas Sargent (1979), a hipótese das expectativas racionais ignora as informações do passado e a sua premissa é observar o futuro, utilizando-se de todas as informações existentes, considerando que os mercados sejam eficientes.

Observando esta premissa em relação ao mercado financeiro doméstico e internacional, as expectativas que se formaram em relação ao futuro da economia mundial nas últimas semanas tomaram proporções distorcidas em relação aos fundamentos econômicos. A principal desorganização está relacionada aos preços dos ativos de commodities.

Os fundamentos da oferta e da demanda que guiam este mercado não condizem com a realidade dos patamares atuais das cotações. A explicação para a sustentação artificial dos preços está na menor renda mundial disponível para o consumo, no aumento dos estoques mundiais, no aumento da produção dos grãos nos EUA e sinais poucos consistentes de recuperação econômica.

Se as expectativas racionais dos participantes do mercado estão calcadas em sinais frágeis de recuperação econômica, por que as cotações das commodities subiram rapidamente após março de 2009? Isolando as fortes compras de commodities pela China da análise, a resposta está delimitada nas posições especulativas dos mesmos hedge funds das altas dos preços dos anos anteriores. Na minha opinião, dois fundamentos econômicos poderiam influenciar na elevação dos preços das commodities, a alta da inflação nos principais mercados e a recuperação econômica mundial. Fora os dois fundamentos, a explicação de mercado adviria das grandes posições compradas dos fundos.

As posições dos fundos estão distorcendo as cotações e ignorando os fundamentos econômicos atuais. As informações disponíveis a respeito da economia mundial levam à indução de que as expectativas das cotações atuais estão fragilizadas.

É cedo afirmar racionalmente que iniciamos uma recuperação econômica internacional sustentada, porém, o processo especulativo em torno desta está desorganizando os preços dos principais ativos e quem está se aproveitando deste cenário são os hedge funds, novamente.
¹Sachs, J., Larrain, F. Macroeconomia. São Paulo. Pearson. 2004.
Ricardo André Jacomassi é responsável por análises setoriais das commodities agrícolas na LAFIS Consultoria Econômica e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.

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